Luís Renato Costa
Sou mais presente na ausência.
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Terapia do varrer
Há quem não tem um quintal, porém gosta de varrer.  
Há quem não tem um quintal e não gosta de varrer.
Há quem goste de varrer, porém não tem um quintal.
Há quem, de varrer não gosta, apesar de ter um quintal.

Mas há os que têm um quintal e gostam de varrer,
Parece gosto esquisito, mas o que se há de fazer?
Faço parte deste grupo e tenho um pequeno quintal.
Não varro de qualquer jeito. Dependo de um ritual.  

A vassoura deve estar sempre no mesmo lugar.
Deve ser sempre a mesma, pois amiga há de ficar.  
Uma vassoura comum, nem de ouro, nem de prata,
De cerdas firmes e fortes, nem tão cara ou tão barata,
Nem macia, nem tão rígida, mas de porte altaneiro,
Que se mantenha ereta, de janeiro a janeiro,
Que se mova sem rebeldia, segura e cadenciada.
Elegante, embora simples. Nem tão leve. Nem pesada.
Que junte o que não mais serve, com o cuidado necessário para nem tudo juntar,
Pois sempre alguma coisa, por mais que a gente não queira, será preciso ficar.
Que vasculhe canto a canto, sem se esquecer de nenhum,
Separando tudo o que é lixo, pouco a pouco, um a um,  
Deixando o solo bem limpo, sem uma folhinha sequer,
Dançando por entre as flores, amassando erva daninha, preservando o bem-me-quer.

Assim, de uma forma bem calma, sem pressa e com atenção,
Varrendo, varrendo e limpando, ajeito o que está no chão,  
Assim como se faz com a vida, dando jeito ao coração.
Em um cantinho qualquer, recolho as folhas perdidas ou apenas esquecidas,
Jogo fora o que não presta, o que fere ou incomoda, o veneno, as feridas,
Assim como exige a vida, que tem hora de chegada e tem hora de partidas.

Mas às vezes precisamos, mais que uma boa vassoura, de um rastelo voraz,
Que com afiadas garras, fere a terra mesmo que a sangre, nada deixando prá trás,  
Assim como cobra a vida, vez por outra ou quase sempre, quando se impõe esquecer,
Sentimentos cultivados por descuido ou fantasia, que ao invés de alegria, nos acenam com o sofrer.  

Concluído o trabalho, surge uma paz suprema. É hora de descansar.
Tudo está em seu lugar, cada coisa no seu canto, nada mais a atrapalhar,  
Mas sinto que logo, logo, já, já, ou muito em breve, voltarei a vassourar,
Pois o solo, ora limpo, com a sujeira que há no mundo, voltará a se sujar,
E ao guardar a vassoura, exausto embora feliz, e com a alma mais leve afinal,
Volto de volta prá vida, a mesma vida que vive, no meu pequeno quintal.  
Luís Renato Costa
Enviado por Luís Renato Costa em 03/12/2017
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